Não há alguém, o coração dessa vez faz-se vazio. Não há novidades, o ontem e hoje se confundem e anunciam o amanhã de daqui a pouco. As mãos estão desencaixadas e não há adorno algum nos dedos.
A sensação era para ser de liberdade absoluta, mas o que me toma nesse momento é o sentimento de falta, ainda que não possa definir do quê, como se eu fosse roubado de algo importante.
O caminho está coberto por folhas secas, o barulho de meus sapatos ao pisar nelas é a única companhia aos meus ouvidos. O olhar é fixo e os passos constantes até a próxima curva dona de uma estrada de terra que finda no píer a companhia do sol até suas despedidas.
Os pés alcançam a água, a calça está molhada e a gravata afrouxada, as mãos apoiadas após a linha das costas inclinadas que sustentam a cabeça voltada unicamente aos pensamentos, que parecem escritos no infinito do céu, pontuados e acentuados pelas estrelas que vão tomando todo lugar.
A posição cansa e os pensamentos se vão com o fim do crepúsculo, a cabeça pesa, os ombros recuam e as mãos estão pelos joelhos, a água reflete alguém que não posso reconhecer, a barba sempre feita por fazer, olhos fundos e cabelos mal tratados.
As palavras faladas e as contidas são arrependidas, são como gavetas trocadas na hora de serem ditas ou escondidas. Certamente são amargas a mim, agora, as palavras que pareciam gritos de alforria, de ambos, naquele momento.
A porta batida e a vista de suas costas distanciando-se faziam aliviar-me e ficar mais calmo. Isso faz ao menos 13 dias contados a partir da segunda hora que a porta se fechou.
De repente, uma mão, no mesmo ombro retraído, a companhia de um rosto ao que, ainda não aceitando, sabia ser eu, ou do que restou de mim. A pele branca, os cabelos negros e os seus olhos verdes como os das colinas que preenchiam o lugar eram a revelação do segredo do que já sabia me faltar.
Entrego meus braços a seu abraço, mais uma vez sou seu.
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