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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Páginas

As páginas brancas perguntam-me com o que vou as rabiscar. O lápis continua no canto da mesa quase se rolando para o abismo que se acaba no chão frio.  A borracha está sonolenta, não há trabalho, não há o que apagar.
É apenas domingo a noite, a TV está desligada, os móveis iluminados a meia luz e a cadeira suporta meu peso sem reclamar. Os olhos procuram algo para me inspirar, mas tudo é igual, tudo é comum. As mãos tímidas percorrem, ainda que lentamente, o caminho até o lápis para abraçá-lo.
Há dúvidas, mesmo em momentos que deveria haver certeza, afinal esse encontro já foi diário, um casamento que rendeu, quase naturalmente, palavras de mãos dadas, frases que se acompanhavam. Os olhos parecem fixar-se dentro de mim, acho que o ponto mais inconstante no lugar, talvez a inspiração esteja na falta da própria.
As palavras ensaiam frases sem sentido. Nesse momento tenho certeza que as faço reféns de minhas vontades. Quero escrever, mesmo que não haja inspiração alguma. Falei por diversas vezes que textos são conseqüências de suor, mas nesse momento, rendo-me a essa falta de razão. Não poderia usar de algum sentido se não houvesse a companhia de sentimento algum. Quero pedir desculpas a cada palavra riscada, as fiz companheiras de minha solidão sem lhes permitir opção.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Fronte..


A facilidade, talvez, seja um tempero que tire o sabor do prato principal. E a dificuldade, o que seria? Pimenta? É estranho, quando estamos vencendo, bem no meio da batalha, quando ainda não se sabe a certeza do resultado final, daí queremos fácil, tudo fácil. Porém quando vencemos,  dizemos o quão difícil foi, a ponto de achar que somos os únicos capazes daquela conquista.
Quando perdemos, a  culpa é somente da derrota, somente dela, como se não estivéssemos lá, ao lado da esperança da vitória e acompanhado, de perto, pelo medo do fracasso. Nossos pensamentos nos traem, parecem nos abandonar quando a razão era necessária. A emoção, ao contrário, parece não caber dentro do peito e seqüestram  os pensamentos, os fazendo reféns de reflexões, de lembranças que nos lançam em um abismo sem fim, sem luz.
O fronte é aqui, bem diante aos meus olhos, não há como fugir, mesmo que os feche, mesmo que leve meus pensamentos pra longe de lá. A decisão é minha, pra onde marchar, que vitória alcançar, o risco a correr. Sou comandante, de mim, de minhas pernas que querem desertar. O tato é dormente e não arrisca sentir a vitória, fui abandonado, desmuniciado da vontade de prosseguir,  ao meu lado a companhia do nada.
A luz, apaga-se, no céu a escuridão, a lua se foi, acho que com as estrelas, mas a chama ainda arde em mim, mesmo que eu não perceba. Por  trás um grito, abafado, quase mudo, vem de  dentro, de mim.
É quente, uma voz aquecida pela mesma chama que agora me chama pelo nome, sabe me conhecer bem. Os olhos embaçados de quase agora voltaram a captar o reflexo que os inundam de vontade de comandar os passos das pernas que arriscavam voltar. A chama, é fogueira, está renovada com  o oxigênio dos pulmões que se forçam a respirar. A firmeza da marcha, o grito que ecoa, eh de guerra, de vitória. A razão domina, o gatilho está armado, pronto, a vitória está definida, o inimigo era interno. O sabor é único ao molho de pimenta.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

SEDE

A risada era falsa, mas a gargalhada era garantida ao ver seu rosto firmemente crente nas falsas verdades de minhas palavras, porém ela era previamente interrompida pela sua pergunta sempre previsível, por que ri? e mais previsível ainda, minha resposta de que era nada e que ainda se completava com um sarcástico, está tudo bem, amor. E tudo se abafava no abraço que lhe dava, so para nao dar a oportunidade de seus olhos condenarem os meus, e por trás deles, os seus, ainda antes de beijar seu pescoço, sentir escapar um sorriso no canto da boca que se afogava em sua pele. Isso era calmo e nao mais pesava em minha mente quando nos despedíamos com meus pensamentos em outra. Só nao percebo bem quando o início do fim começou. Ainda lembro-me nitidamente de quando contava os segundos pra vê-la depois da aula e dos finais de semana que passávamos grudados a companhia de sorvete e bons filmes. Meus olhos penetravam aos seus e podeira ver seu amor por eles sem vestígios de lágrima alguma. Nao havia culpa e nem desculpas, o perfeito parecia alcançado. Dormíamos nus de roupas e vergonhas, conhecíamos cada marca do corpo de cada um e nos doávamos sem medo, pois sabiamos que alí eramos um só. A porta eu nao atendia, para que saber o que havia lá fora se tudo que tenho estava em meus braços? acho bem que possa ter sido esse o erro. Nao que eu tenha notado, esse pensamento vem agora, talvez para setenciar-me ao arrependimento e a dor de nao saber dosar. O fato eh que em uma dessas chamadas a porta, eu levantei-me e nao mais deitei, saí por ela e percebi que o mundo era maior que meu mundo.Nao quero de forma alguma mostrar-me frágil ou vítima de um sistema que criei ou deixei criar-se. Sou culpado e a culpa nao eh a única que me julga, seus olhos, seu toque seu beijo parecem saber de tudo e que vao denunciar a vc o que me tornei a qualquer instante. Sei que a tenho, nao sei se minha, mas ainda a tenho, nao sei se pelo medo, nao sei se por pena, mas sei que sem voce vivo. Os contos de fadas, do início, nao me convencem de que seremos felizes para sempre e que nao viveremos um sem o outro, mas que somos felizes e que na ausencia de um ou do outro ficarao boas lembranças e ensinamentos que serao compartilhados com pessoas que fatalmente cruzarao nossos caminhos. Quero bater na porta que saí, chego perto, parece entre aberta, de fato ela esperava-me. Noto, seus olhos estao inundados e nao ha maquillagem. Sua roupa eh a mesma de ontem, de quando a traí pela última vez. Minha garganta parece seca e com um no intragável, todo esse cenário dava-me a certeza de que ela sabia. O pedido de desculpas nao fora ensaiado, mais uma vez nao a respeitei, achei que falar toda verdade em baldes despejados a qualquer modo seria aceitável por ela. Covardemente eu soletrei aos trancos e barrancos, a-ca-bou, desculpas pelo indisculpável, dei-lhe as costas como sempre fiz, mesmo que ainda de lábios unidos, saí pela mesma porta que mostrou-me que o mundo é maior e que a verdade e a mentira sao duas grandes avenidas que escolho tomar.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Telefone

Eu tinha certezas indefinidas em minha mente,  consumiam-me a carne forçando-me aos vícios. A fumaça do cigarro apagado ainda permanecia no ar e  gelo da bebida amarga parecia afogado e sentenciado ao  seu fim.  O sofá marcado e a sujeira da mesa de centro culpam meus  pés já descalços que abandonaram a prova da reclamação perto da sala de jantar. Ainda sim, há vestígios que me remetem a qualquer passado distante ou mesmo o de ontem que me fizeram repetir cada ensaio em ritual. Não há cortinas, mas não posso ver o sol, mas a lua adentra sem pedir para entrar, traz consigo o frio e suas marcas que me fazem pensar. A TV fora do ar e o rádio mal sintonizado são as únicas companhias de meus ouvidos que por horas já parecem surdos, a vontade de falar se foi após a última chamada de telefone, o qual se encontra deitado sobre o carpete empoeirado. A roupa e o banho ainda são os de ontem e ainda não me levantei do sofá. O soluço engasga-me e as lagrimas são raras e não justificam qualquer sentimento, o medo e a coragem foram-se, não sei se juntas para me debochar,  a verdade é que os deixei ir. A solidão confessa-me, com o dedo na ferida, culpando-me de cada perda e suplicando para que eu me encontre, pois nem ela mesma sabe me acompanhar.

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