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sábado, 19 de fevereiro de 2011

SEDE

A risada era falsa, mas a gargalhada era garantida ao ver seu rosto firmemente crente nas falsas verdades de minhas palavras, porém ela era previamente interrompida pela sua pergunta sempre previsível, por que ri? e mais previsível ainda, minha resposta de que era nada e que ainda se completava com um sarcástico, está tudo bem, amor. E tudo se abafava no abraço que lhe dava, so para nao dar a oportunidade de seus olhos condenarem os meus, e por trás deles, os seus, ainda antes de beijar seu pescoço, sentir escapar um sorriso no canto da boca que se afogava em sua pele. Isso era calmo e nao mais pesava em minha mente quando nos despedíamos com meus pensamentos em outra. Só nao percebo bem quando o início do fim começou. Ainda lembro-me nitidamente de quando contava os segundos pra vê-la depois da aula e dos finais de semana que passávamos grudados a companhia de sorvete e bons filmes. Meus olhos penetravam aos seus e podeira ver seu amor por eles sem vestígios de lágrima alguma. Nao havia culpa e nem desculpas, o perfeito parecia alcançado. Dormíamos nus de roupas e vergonhas, conhecíamos cada marca do corpo de cada um e nos doávamos sem medo, pois sabiamos que alí eramos um só. A porta eu nao atendia, para que saber o que havia lá fora se tudo que tenho estava em meus braços? acho bem que possa ter sido esse o erro. Nao que eu tenha notado, esse pensamento vem agora, talvez para setenciar-me ao arrependimento e a dor de nao saber dosar. O fato eh que em uma dessas chamadas a porta, eu levantei-me e nao mais deitei, saí por ela e percebi que o mundo era maior que meu mundo.Nao quero de forma alguma mostrar-me frágil ou vítima de um sistema que criei ou deixei criar-se. Sou culpado e a culpa nao eh a única que me julga, seus olhos, seu toque seu beijo parecem saber de tudo e que vao denunciar a vc o que me tornei a qualquer instante. Sei que a tenho, nao sei se minha, mas ainda a tenho, nao sei se pelo medo, nao sei se por pena, mas sei que sem voce vivo. Os contos de fadas, do início, nao me convencem de que seremos felizes para sempre e que nao viveremos um sem o outro, mas que somos felizes e que na ausencia de um ou do outro ficarao boas lembranças e ensinamentos que serao compartilhados com pessoas que fatalmente cruzarao nossos caminhos. Quero bater na porta que saí, chego perto, parece entre aberta, de fato ela esperava-me. Noto, seus olhos estao inundados e nao ha maquillagem. Sua roupa eh a mesma de ontem, de quando a traí pela última vez. Minha garganta parece seca e com um no intragável, todo esse cenário dava-me a certeza de que ela sabia. O pedido de desculpas nao fora ensaiado, mais uma vez nao a respeitei, achei que falar toda verdade em baldes despejados a qualquer modo seria aceitável por ela. Covardemente eu soletrei aos trancos e barrancos, a-ca-bou, desculpas pelo indisculpável, dei-lhe as costas como sempre fiz, mesmo que ainda de lábios unidos, saí pela mesma porta que mostrou-me que o mundo é maior e que a verdade e a mentira sao duas grandes avenidas que escolho tomar.

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