Ela não veio hoje, não sei o que se passou. O ponto de ônibus
está vazio, dias de feriado são sempre assim. A espera é mais demorada, não há nossas
conversas pra me distrair, ainda que o que mais me distraia é olhá-la, confesso
não prestar muita atenção nas palavras dela. São duas semanas e três dias desse
relacionamento platônico, amistoso, mas recheado de segundas intenções minhas e
medos que me provocam e me acovardam em cada ensaio de alguma confissão. São tantas
as oportunidades que poderia buscar como motivos de dizer algo, o blush
borrado, os quase dez livros pesados ou mesmo o tênis de cor estranha desamarrado.
Nada passa ser desculpa quando o objetivo é jamais revelar a verdadeira intenção.
Além do mais, as técnicas não têm alcançado as promessas dos prefácios, pelo contrário,
confundam-me a cada instante que comprovo que ela é única, diferente. Lições generalizadas
de certo não poderiam dar-me resultado algum. Ela é mestra em me deixar com vontade
de sua companhia, mesmo com as palavras pouco aproveitadas, ainda que apenas
com seu olhar ou a forma de seu rosto bem próximo do meu. Nunca continuamos
nossas conversas, nunca me conta um segredo e muito menos que sentiu minha
falta ou que não. Seu ônibus é sempre antes do meu, daí ela parte e não fica
nada, senão a sensação do mesmo vazio de que amanhã será diferente, que vai
surgir a coragem e deixarei de ser covarde. De qualquer forma eu não poderia
cobrar, não dela, talvez só de mim. É sempre tudo tão artificial e eu esperando
que ela mergulhe.
Aproveite............
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